Em vez de fazer vários posts curtos e superficiais, reúno os assuntos do final de semana em um único post, longo e igualmente superficial.
Haiti: eles não entenderam nada
O fracasso parece ter subido à cabeça da diplomacia brasileira. De tanto bradar aos quatro cantos os seus triunfos internacionais, a chancelaria brasileira parece ter acreditado na realidade fantasiosa que criou e que tenta empurrar ao mundo goela abaixo. O episódio recente do Haiti é de dar vergonha. Em meio a uma crise humanitária sem precedentes no continente, o Brasil parece mais preocupado em entrar numa disputa particular com os Estados Unidos para ver quem é o chefe dos escombros, e menos interessado em unir esforços em prol dos haitianos. O importante é aparecer bem na foto. O tal “assistencialismo unilateral” inventado pelo Celso Amorim é risível. Pensar em capitalizar politicamente com o episódio é mesquinho, burro e inútil. No mar da Terra, o Brasil ainda está mais para rêmora do que para tubarão.
PS: Não quero parecer injusto. Os avanços da diplomacia brasileira nos últimos anos são expressivos. O G20 é uma realidade, e Lula é o cara. Mas o episódio Haiti é de lascar.
Chile x Argentina: comparando incomparáveis
Parece descabido o paralelo entre Chile e Argentina feita pela Folha na edição de domingo (“Andes separam estabilidade da turbulência”). É como comparar saúde com saudade simplesmente porque as duas palavras são vizinhas de página no dicionário.
A economia do Chile é agrícola, extrativista e exportadora. A prosperidade chilena parece depender mais do preço das commodities no mercado internacional (sobretudo o cobre) do que de seguir cartilhas econômicas mais ou menos ortodoxas. A população chilena caberia na grande Buenos Aires, e está concentrada em grande medida na capital Santiago.
A Argentina tem uma economia mais diversificada. Depende dos produtos agrícolas (trigo e carne), mas conta com um parque industrial mais complexo, ainda que sucateado. Apesar da importância de Buenos Aires, o país tem outros centros com alguma relevância, como La Plata, Córdoba e Rosário. Lembre-se que a presidente Cristina Kirchner veio da província de Santa Cruz, no sul do país.
O texto da Folha compara a tranquila transição no Chile e da confusão política na Argentina. Primeiro, não acho que haja uma grande mudança em curso no Chile. Os dois candidatos passaram a insossa campanha eleitoral disputando a posição de melhor naquilo que já está sendo feito. Pinyera venceu ao vender aos eleitores a imagem de empresário bem sucedido, em contraposição ao “mais do mesmo” do ex-presidente Eduardo Frei. No fundo, tanto faz. A estabilidade é quase circunstancial, e enquanto a economia vai bem, o que se vê é a indiferença fria dos eleitores chilenos.
Na Argentina, a coisa vai mal. O PIB só agora chega aos níveis de 1998, e as únicas coisas que crescem vigorosas são a inflação e o desemprego. O contestador povo argentino está insatisfeito, o que abre espaço para o discurso inflamado da oposição. Até o vice-presidente aparece como um dos líderes da oposição ao governo. Diferentemente do Chile, a estrutura partidária argentina parece feita para dar errado. Basta lembrar que a lei permite que haja vários candidatos de uma mesma agremiação disputando o mesmo cargo em uma eleição majoritária. A economia fragilizada acende o pavio. E o barril de pólvora está logo adiante.
Em resumo: a sociedade, a economia e a estrutura política do Chile são mais simples do que os cenários do vizinho do lado de cá dos andes. Guardadas as devidas proporções, a comparação seria mais pertinente com o Uruguai do que com a Argentina. Mas aí não teríamos lide, certo?
Me xinga que eu te xingo
Ridículo o bate-boca entre os gêmeos siameses PT e PSDB. Ridículo, mas eficiente. Enquanto trocam acusações, os dois seguem fortes no noticiário e aumentam o recall. Agora é a hora do “falem mal, mas falem de mim”. Entre uma ofensa aqui e um xingamento acolá, a polarização entre Dilma e Serra se consolida. Quem perde é quem fica quieto. O silêncio sepulcral de Marina Silva e o sumiço de Ciro Gomes reforçam a impressão de figurantes na próxima eleição presidencial.
São Paulo, ame-a e deixe-a?
Há uma semana, a ONG Nossa São Paulo apresentou resultado de uma pesquisa Ibope feita para medir o grau de satisfação dos paulistanos com sua cidade. A metrópole foi reprovada sem apelação. Sondagem Datafolha publicada no último domingo na Revista da Folha apontou que, pasmem!, o paulistano está cada vez mais satisfeito com São Paulo. Em uma, está tudo ruim. Na outra, tudo aparece estar cada vez melhor.
É certo que as pessoas mudam de opinião. Basta uma chuva, um assalto, um congestionamento, e uma boa impressão se perde ou se cria. Mas os resultados tão díspares em tão pouco tempo deixam um certo gosto amargo na boca. Há sempre que se olhar além em ano eleitoral. Eu vejo vultos entre a neblina, mas não sei ainda exatamente do quê. A conferir.

